quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Seu Ramon

Acredito ser difícil envelhecer, mais difícil ainda envelhecer sozinho. Olho as fotos antigas da minha família, aquele tempo que não vivi, parece um tempo tão mágico. Fotos que contam a história de uma época  que não irá voltar. Provavelmente alguém virá fotos de 2011 algum dia e pensará a mesma coisa.  

O Seu Ramon é um senhor, não vou tentar adivinhar a idade dele,  60 e poucos talvez... , que faz cursinho pré-vestibular há alguns anos. Também não sei por quanto tempo exatamente, mas já me falaram que fazia uns oito anos. Ele quer fazer Direito na UFRGS, dorme na aula e lê durante horas as leituras obrigatórias na biblioteca. Eu sempre o observo com certa admiração, qualquer outra pessoa estaria em casa lamentando o que deixou de fazer e falando que seus filhos a abandonou, que não ligam ou visitam. 

Ele chega, quase todos os dias pergunta o meu nome. Me chama de loirinha (por mais que tente, não consegue gravar meu nome) e pergunta qualquer coisa sobre a matéria ou não. Ele me disse um dia desses que tinha uma doença, eu não consigo lembrar exatamente o que era, mas acredito que é algo que deixa ele mais lento, no raciocínio e nos movimentos. Também é difícil de entender o que diz.

O Seu Ramon cativa muita gente, outras pessoas não gostam dele, os professores sempre falam nele. Pra mim, ele é um exemplo. Se comunica com os jovens, tem amigos, os adolescente com quem tem aula o respeitam, alguns o ajudam com a matéria. Ele é um homem sozinho, a mulher que trabalha na biblioteca o descreve como uma criança idosa. Ele é feliz da maneira dele e me deixa um exemplo a seguir. Alguém que, não é porque está velho e sozinho, não deixou de viver, de aprender, de ter sonhos e de segui-los. Algumas pessoas brincam que ele merece uma vaga de honra ao mérito na UFRGS. Talvez ele nunca passe na UFRGS, mas tenho certeza de que não vai desanimar, a vida já mostrou pra ele que perder é normal, que a novidade é a vitória.

Seu Ramon, que viveu naquele tempo das fotos em preto e branco que eu gosto de analisar, vive no meu tempo e convive comigo. Quem disse que o passado e o presente não podem andar juntos? Quem disse que a idade que temos fala algo sobre nós mesmos? Tem pessoas que seguem as regras, outras seguem o coração. O Seu Ramon está no segundo exemplo. 


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